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  • 16 Setembro 2007

Um crítico armado de arte e bom-humor

Faltam apenas onze desenhos para o cartunista, caricaturista e chargista Reginaldo Soares Coutinho se torne o primeiro brasileiro a ter publicado, na rua, mil charges. Um livro e um vídeo documentário, intitulado “ Assim eu num voto”, estão sendo produzidos para marcar a data. A intenção do artista é que seja publicada uma charge por semana até 15 de novembro, data prevista para o lançamento do livro e vídeo.

Régis Soares, como é mais conhecido, começou a desenhar aos 10 anos de idade, a princípio, a contragosto do pai que tinha uma mercearia no bairro do Castelo Branco. “ Eu ia para ajudar meu pai e acabava caricaturando os fregueses. Eles riam e se admiravam com minhas brincadeiras”, lembrou o cartunista. Na adolescência conheceu Cláudio Limeira e Chico dos Santos que despertaram em Régis o gosto pela arte do desenho e da pintura. Tentou prestar vestibular para educação artística, mas precisava trabalhar para sobreviver.

Começou a trabalhar profissionalmente em 1983, no extinto jornal O Momento. Publicou trabalhos em veículos da imprensa como: O Pasquim, A Tribuna, O NORTE, Correio da Paraíba e Jornais Sindicais. “Era muito pouco o que eles pagavam na época. Foi quando resolvi me dedicar ao que realmente gostava de fazer sozinho”, contou.

A popularização das charges na rua começou no ano de 1987, por causa de um buraco e uma galeria entupida. Está ultima ainda existente na esquina das ruas Etelvina Macedo de Mendonça (antiga Nossa Senhora de Fátima) e a Barão da Passagem, no bairro da Torre, onde funciona seu atelier. O problema foi parcialmente solucionado. A atual administração pública municipal mandou tapar o buraco, desobstruir a galeria, que volta a ficar obstruída toda vez que cai um temporal na cidade.

Em 1992, passou a fotografar suas charges com receio de que seus trabalhos fossem copiados. Visitar seu atelier deveria ser parada obrigatória para estudantes de comunicação, artes plásticas, desenho industrial, educadores, designer, artistas e humoristas. Nas paredes da casa, com poucos mais de quatro ambientes, o que se vê são mais 700 fotografias, além de painéis com charges, caricaturas, desenhos e matérias de jornais em molduras de vidro.

O painel exposto na rua é mudado a cada semana e já completou 20 anos agora em 2007. Foram anos de luta e muitos conflitos. Os casos contados por Régis por causa de suas charges na rua são os mais variados possíveis. Um dos últimos episódios chega a beirar o ridículo. Fato ocorreu quando estava tentando captar recursos para publicação do livro “15 anos de charges na rua” e um presidente de sindicato, que se candidatou a vereador nas ultimas eleições, ofertou a ele um cheque no valor R$ 200,00 para custear a publicação e dias depois pediu o dinheiro de volta.

Até ameaça de morte por parte de alguns políticos paraibanos Régis Soares recebeu. “Hoje não mais me atacam. Eles até me cumprimentam, querem ser mais meu amigo do que meu inimigo”, disse. Os personagens mais desenhados foram os políticos que estão ou que passaram administração pública, a exemplo do presidente da república Luis Inácio Lula da Silva, o atual governador do Estado da Paraíba, Cássio Cunha Lima, o ex-governador, José Maranhão, e o prefeito da cidade de João Pessoa, Ricardo Coutinho.

Régis Soares nunca modificou o formato de suas charges. Proposta não lhe faltaram, mas ele acredita que a charge na rua é uma forma do povo expressar aquilo que sente vontade de dizer e não tem meios para fazer. ”Nunca cai na tentação de banalizar meu trabalho. Sempre tive  consciência do que eu estava fazendo. A população gosta disso, porque é uma denúncia que estou fazendo. Se tiver de mudar eu mesmo mudo, sem precisar colocar anúncios”, acrescentou.

As charges ao mesmo tempo em que denunciam servem de redutor de velocidade para trânsito movimentado do local. As pessoas acabam passando mais devagar para ver o que esta escrito.” As vezes os motoristas mais desavisados acabam colidindo”, disse o chargista que perdeu a conta de quantas vezes o local ficou congestionado.

Sua marca é inconfundível. Até uma simples placa de “vende-se” ou “aluga-se”, é fácil identificar o traço personalíssimo do artista. Para compor seus trabalhos ele usa o lápis grafite para riscar e a tinta nanquim para cobrir. Um dos aspectos essenciais no trabalho de todo chargista é a crítica social. A crítica, nas charges de Régis Soares, é fundamentada em valores sociais e democráticos.

Em seus desenhos  o chargista expressa uma idéia simples ou um sentimento como se fosse uma alegoria de risos. A associação de idéias reforça uma ideologia e visão de um mundo de um homem muito bem informado, que também assiste pela televisão os conflitos e se sente angustiado com a direção que o homem esta dando as nações. Como na charge da página 79 de seu livro “15 anos de charges na rua”, em que dois judeus questionam sobre a reeleição do presidente americano. “Bush foi reeleito!”, diz o texto em um balão. “Pronto, lá vem bomba”, rebate o outro.

O trabalho de Régis Soares virou objeto de estudo e análise da professora Francineide de melo, no curso de mestrado em Letras da UFPB. Ela analisou 21 charges cedidas por ele, e de quebra recebeu do artista as ilustrações para o trabalho. A pesquisa foi orientada pela professora Ivone Lucena, e teve como objetivo “refletir sobre as articulações significativas entre o homem, à história e a sociedade e, dessa forma, interpretar a relação do homem com a sua realidade mo discurso de Régis”.

Régis Soares é casado com Luíza, sua grande incentivadora, com quem tem dois filhos. O mais velho, Felipe, segue os passos do pai, e Raissa ajuda no atelier nos horários em que não esta na Universidade. Um dos sonhos dele é transformar seu atelier num ambiente de visitação pública e de cultura, com cursos, oficinas para crianças e jovens que vivem em situação de risco social.

 

Fonte: Jornal O Norte

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