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  • Por Hidelberto Barbosa Filho - Poeta
  • 22 Julho 2006

15 anos de Charges na Rua - 2006

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Uma Outra Modalidade de Olhar

O Paraibano do século sou eu, sem emprego, sem saúde, sem educação, sem futuro.
Régis Soares

Eis uma frase características de uma das charges de Régis Soares. Associada ao texto icônico – uma figura depauperada e perplexa perante a descoberta da própria condição -, compondo, assim, a organização sintática do discurso, tem-se uma das vertentes mais férteis do caricaturismo e do cartunismo deste artista singular. Quero me referir ao veio social, político e participante de sua criação, sem que este, na sua intensa recorrência, venha elidir outros campos de atuação e de leituras.

Primeiro se lê o mundo, depois se lê a palavra, afirma Paulo Freire num dos seus textos seminais. Lê-se o mundo com as armas da razão, da sensibilidade, da imaginação e, principalmente, da linguagem. Linguagem que pode advir dos insumos primais da experiência humana mas também dos processos culturais, com suas técnicas, sinais, signos, vocábulos, conexões semióticas, enfim, com os procedimentos que podem possibilitar o incrível tráfego entre percepção e expressão e entre matéria e forma.

Que faz Régis Soares, nesta coletânea de seu cartunismo, a não ser transitar, ao seu modo lacônico e contundente, pelas instâncias do apelo cognitivo e criador. Cognitivo porque sua leitura de mundo, enraizada num foco eminentemente popular, tende a abrir os olhos e a consciência de outros leitores – e eu diria, leitores anônimos do dia-a-dia – para as dores e as alegrias da vida cotidiana. Criador porque a mescla de signos, numa proposta que passa pelo texto verbal, pela caricatura e pelos quadrinhos, se impõe como realidade formal autônoma, isto é, independentemente do mundo referencial, mesmo que para ele aponte diretamente.

Suas charges, na perspectiva da renovação que empreendeu Millôr Fernandes e que vem repercutir nos trabalhos de Borjalo, Claudius, Ziraldo, Jaguar e Henfil, entre outros, primam sobretudo pelo acento social e político, elencando, aqui, uma série de personagens, de situações e de vivências típicas da cena pública e das pequeninas tragicomédias da ribalta cotidiana. O político corrupto, o empresário desonesto, a instituição anti-ética, o desempregado, o homem comum do povo, os bens públicos sucateados, as lutas sociais, os profissionais desvalorizados, enfim, estes e outros atores ocupam papel de destaque na sua dinâmica narrativa.

Mas há, na leitura crítica de Régis Soares, no texto de humor, a força da componente lúdica e descontraída a transfigurar o imaginário popular da cidade, com seus bairros e arredores postais. Seja em forma de livro como aqui se faz, seja no inesperado dos cartazes afixados na rua, existe sempre uma nota de riso – riso que está mais para a sátira do que para a ironia, uma vez que é própria da sátira a esperança enquanto a ironia capitula sob o tédio – em suas mensagens como que revela a todos nós – decodificadores instantâneos – uma outra modalidade de olhar... O olhar crítico, o olhar criativo, o olhar lúdico. O olhar que, estrumado na fertilidade do humor legítimo, procura descortinar o lado risível das coisas e dos homens.

Atento a estes aspectos sociais, históricos e econômicos da esfera pública, Régis Soares se transmuda num agudo e labora sobretudo a intuição do detalhe. Atento aos interstícios da esfera privada, assume, em certo sentido, a postura de um sociólogo da compreensão dentro da pauta diversificada da aventura do cotidiano. “15 de outubro, dia do professor”, outro enunciado que bem se aglutina ao visual de uma sala vazia e ao desamparo de um mestre solitário, decerto com salários defasados. “ A de Xuxa é Sasha...e a minha é xoxinha...”, outra charge que nos remete à absurda distância social e, em certo sentido, ao descompromisso social dos meios de comunicação de massa. E poderia referir outras e mais outras no amplo legue que este volume nos apresenta.

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