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  • Por João Linhares - Compositor & Regente
  • 18 Julho 2015

Charges na Rua 3 - Humor com Resistência, Liberdade e Coragem - 2015

Charges na Rua 3 - Humor com Resistência, Liberdade e Coragem - 2015 - 5.0 out of 5 based on 1 vote
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- Humor, Resistência e Liberdade


Sorrir quando tudo anda bem é muito fácil, a vida seguindo em harmonia, com seus desdobramentos de felicidade, sempre nos traz um sorriso no rosto a cada vitória, e assim, a felicidade não carece de resistência, basta que se deixe levar pelas ondas positivas que a vida nos traz, em seus momentos fecundos e especiais. No entanto, como tudo está em eterno movimento, a roda gira e de repente algum evento de natureza pessoal ou social, interfere no nosso humor e fica difícil sorrir, quando a vida nos chega batendo, quando algo nos é tirado ou negado, por força de circunstâncias alheias a nossa vontade. Nessa hora, a grande maioria das pessoas resiste, e quer de alguma forma transpor esses obstáculos, da forma que lhe for mais apropriada ou conveniente. No fundo todos torcem para que tudo dê certo, mesmo sabendo que os homens agem errado. A percepção da realidade é infinitamente variável de indivíduo para indivíduo, cada um vê as coisas como gostaria que elas fossem e não como realmente o são. A realidade não é um sonho, mas os sonhos também fazem parte da realidade. A vida prática requer muitos compromissos de trabalho, mais um tempinho para se fazer social e tentar conquistar algo que se deseje, para a sua vida pessoal; em geral o amor e o dinheiro são os objetivos principais. Assim todo o resto fica em segundo plano, desfocado do objetivo principal, a realidade ao redor se apequena e muitas vezes parece nem existir, aos olhos ambiciosos da vida prática. É preciso ganhar o pão de cada dia, de preferência honestamente, mas nem sempre é assim, todos sabemos disso. Nasci numa época em que apanhar fazia parte do processo educativo, era comum ver crianças trabalhando, em geral para ajudar aos pais, pois acreditava-se que brincar demais podia estragar o futuro do menino, nos roubavam a infância e faziam de nós "pequenos homens" por pura ignorância. Quando eu tinha 11 anos, morávamos no bairro do castelo branco em João Pessoa, minha mãe me mandava sempre ao mercado público do bairro para fazer pequenas compras. Lá conheci um menino que trabalhava, ajudando seu pai na venda da família, sabia todos os preços de cór, era comunicativo e passava o tempo entre um e outro freguês, desenhando nos papéis de embrulho. Muitas vezes levei para casa mercadorias embrulhadas com seus desenhos, que naquele momento, ainda estavam em processo embrionário de aprimoramento estético. Depois ambos estudamos na Escola Polivalente no mesmo bairro e aí sim, ficamos amigos e passamos a andar juntos, fazer tarefas de escola e quando dava, jogar uma bolinha ou ir a um "Assustado" no final de semana. Sempre que conversávamos sobre profissão ele me dizia "eu quero ser desenhista, mas o meu pai quer que eu seja comerciante". Ele se queixava da falta de apoio do seu pai, ao seu sonho de ser desenhista, e continuava: "meu pai acha que desenho não dá dinheiro, mas é o que eu quero fazer" e seguia como disse, entre um e outro freguês, desenhando nos papéis de embrulho. Com o passar do tempo, Reginaldo se cansou da venda do seu pai e foi atrás do seu sonho, deixando seu irmão mais novo na venda junto com o pai. Foi um processo turbulento, porque desobedecia a uma ordem paterna, numa época em que isso era para poucos, a surra era quase certa e o jeito era ser mais rápido que a chibata. Régis foi trabalhar pintando faixas, precisava sobreviver agora sem a ajuda do pai, que não aceitava sua escolha. Se envolveu com as lutas políticas estudantis, e veio a fase que gosto de chamar de "início do pensamento crítico" na sua arte. Foi junto com alguns companheiros de esquerda, que Régis desenvolveu sua visão de sociedade e começou a usar sua arte para passar uma mensagem de protesto diante do descaso do poder público para com as coisas do povo. Passou a "cutucar onça com vara curta" pois ainda estávamos sob a fase final do regime militar. Assim mesmo, Régis continuava fazendo seus desenhos e correndo um risco bem maior do que aquele, quando desobedecia ao seu pai. Recebeu ameaças, tentaram intimida-lo, mas ele continuou, e começou a ser notado por grande parte das pessoas que admiravam seu talento e principalmente, a sua coragem. Parecia que era aquilo mesmo que todos queriam dizer e só ele conseguia encontrar um jeito, no meio de tantas adversidades, para criar uma nova graça com o seu trabalho. Assim a cidade ganhou um artista autêntico, comprometido com as causas sociais, popular por essência, divertidamente áspero e porque não dizer “incomodo” para quem ocupa o poder, em qualquer esfera. Ainda hoje é assim, 30 anos se passaram, o menino virou homem, nunca parou de trabalhar nem de sorrir, constituiu família, criou e educou seus filhos pintando faixas, deu imensa contribuição a nossa cidade através dos seus desenhos críticos, plenos de realidade e de vida, e como previu o seu já falecido pai, nunca ganhou dinheiro com isso... No entanto, a cidade não seria a mesma sem esse grande artista que todos passamos a admirar. Nossa cidade tem uma divida para com ele e não tem como pagá-lo, porque tudo o que fez e ainda faz não tem preço, não é para ganhar dinheiro, é para semear a consciência cidadã, e para quebrar os corações de pedra.

João Linhares
Compositor & Regente

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